Queiti - a energia da terra

A grande contradição da sociedade de consumo é a seguinte: para sobreviver, a indústria tem de produzir cada vez mais. Só se é competitivo produzindo muito e mais barato. Isso implica menos mão-de-obra e mais máquinas.
Atentemos no paradoxo: menos mão-de-obra quer dizer mais desemprego. Então o inevitável aumento da produção destina-se a quem?! Uma forma simples de ilustrar o problema é a seguinte:
cada dia a indústria produz para mais novos 100 consumidores... à custa de 100 novos desempregados incapazes de consumir!
Como se resolve esta contradição?

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OS PRÓXIMOS PALADINOS DO PROLETARIADO
Os futuros campeões na luta pelos direitos humanos, por mais incrível que pareça, não serão nem tanto os movimentos socialistas, a igreja ou as sociedades de pendor democrático, mas (provavelmente após algumas mais convulsões sociais) a grande indústria, a banca e as redes internacionais de distribuição comercial.
Tal luta nada terá a ver como actual figurino de defesa das classes desfavorecidas. Será travada e vencida pelos grandes produtores mundiais, forçados a exigir do sistema uma redistribuição justa e equitativa da riqueza. Única forma de fornecer aos que hoje nada consomem, os meios elementares necessários ao escoamento continuado da produção de uma sociedade intensamente manufactora.
ra da falência

As sociedades produtoras e de consumo
Está hoje permanentemente presente, no subconsciente de cada cidadão, a inevitabilidade da ruptura do actual sistema económico Ocidental. Tal convicção advém da evidência elementar de que o sistema entrou em contracção, tendo atingido já o seu limite máximo de absorção de mão-de-obra.
O sistema, que vem funcionando tendo como base a competição entre manufactores de produtos semelhantes, obriga-os, numa luta pela sobrevivência, à apresentação de um produto com a mesma qualidade, por um preço inferior ao do seu concorrente directo. Quer isto dizer que cada concorrente, terá de produzir um pouco mais, para que o preço seja um pouco menor.
Apresenta-se-nos assim a grande contradição do sistema. Sendo que um produto competitivo é hoje o resultado de uma forte aposta na robotização, (entendendo-se como tal a substituição por máquinas de alta rentabilidade de grande parte da mão-de-obra humana, cara, reividivicativa, com direito a férias, horas de almoço, turnos, assistência social, licenças de parto, etc.) assiste-se, como consequência, ao desemprego massivo de trabalhadores em todas as áreas de produção. Ora sendo certo que a produção em quantidade leva à queda no desemprego, diariamente, de milhares de trabalhadores limita no tempo os potenciais consumidores finais e inevitavelmente, o consequente excesso de produção das empresas vocacionados para mercados internos. Estas, obrigadas a novos despedimentos terminarão asfixiadas, com a consequente perca das suas quotas de mercado em favor de um natural canibalismo empresarial.
Dado que são estes os pressupostos da produção competitiva, não restará às empresas em fase de compressão outra saída a prazo que a sua extinção ou absorção.
De uma forma provavelmente não tão linear, todos sentimos a existência desta contradição. Sem vislumbrar saída, reconhecemos contudo, a impossibilidade de se manter por muito mais tempo um sistema que produz sempre mais, desenfreadamente mais, para um número de consumidores cada vez menor. Já quase todos possuímos televisores, rádios, automóveis, etc. Refiro-me a nós consumidores que representamos menos de dois quintos da população total do globo. Nós, os que trabalhamos de uma forma não precária e razoavelmente remunerada. Nós que não estamos reformados com pensões de mera sobrevivência, somos os únicos alvos de todos os manufactores. As nossas casas estão atafulhadas de tecnologia, as nossas estradas são um permanente calvário de engarrafamentos. Das nossas gavetas extravasam objectos e gadgets inúteis.

Cópias fiéis, indistinguíveis do original dos melhores relógios do mundo

As populações terminais
O restante da população mundial, porque quase não consome, não só não interessa para o tecido produtor, como mais grave ainda, representa uma formidável massa ululante, pedinte, esfomeada e reivindicativa que vai clamando o seu direito a uma existência digna, enquanto exaure indiscriminadamente os esgotáveis recursos da terra e se consome em motins que obrigam a um formidável dispêndio de recursos em segurança e armamento. Três quintos da população mundial está muito pouco interessada no último grito da tecnologia digital e menos ainda nas virtudes de um simples microondas. Fazem parte daquilo a que doravante designaremos por populações terminais. Limitam-se a uma gestão de sobrevivência, exportando os seus recursos em matéria-prima e mão-de-obra escrava.

Sociedades consumidoras
O advento das novas tecnologias, trouxe consigo a especialização e a criatividade. A aposta passou então pela canalização de vastos recursos para a pesquisa e educação levando a uma primeira cisão das sociedades Ocidentais: as que adoptaram a cómoda postura de usufruir das vantagens das descobertas externas, e as que consumiram meios formidáveis na pesquisa, compra, ou formação de cérebros. As primeiras, que não só jamais recuperarão do atraso tecnológico, como não cessarão de aumentar o fosso existente, cairão inevitavelmente numa fase posterior no grupo das nações terminais. Designemo-las de sociedades consumidoras. A sua inflação e balança de transacções, são um quebra-cabeças permanente para qualquer ministro das finanças.

Sociedades produtoras
Contam-se pelos dedos das mãos o número de países que, devido a conjunturas ainda mal analisadas, se empenharam na pesquisa e manuseio de novos produtos. São estas sociedades produtoras quem, detendo hoje o poder económico, definem a orientação interna das sociedades consumidoras, delineando sistemática e compreensivelmente as políticas reguladoras dos mais diferentes e mesmo contraditórios sistemas políticos, limitando a margem de manobra dos respectivos governantes, fazendo destes meras correias de transmissão dos seus propósitos, os quais, nesta incipiente fase do processo, se resumem basicamente ao alagarmento do espaço de penetração dos seus produtos e á compra vantajosa de matéria prima. Num primeiro relance é pois fácil de entender que sob a mesma tutela do grande poder económico, se encontram tanto os ditadores, quanto os monarcas, os governantes liberais, conservadores ou socialistas. Todos os grandes senhores de pacotilha das sociedades terminais e das sociedades consumidoras, dependem inteiramente dos manufactores que geram bens, tanto quanto do grande mercado financeiro, com quem negoceiam o acesso à sua compra.
Inteiramente dedicada à competição nos mercados florescentes e viáveis, a grande indústria ignora por completo as sociedades terminais, e foge ostensivamente das sociedades consumidoras mal estas denotam sintomas de próxima descida de divisão.
Deixa nas mãos dos seus polícias a contenção, enquanto aguarda que os seus políticos encontrem uma solução para os tais três quintos da população mundial que, numa óptica de consumo, é irremediavelmente irrecuperável, contestatária, inútil consumidora de oxigénio e grande responsável pela poluição desregrada e progressiva destruição dos parcos recursos naturais do planeta.
Absolutamente supérfluos estes três quintos de nós todos.
Embora não seja tema corrente de discussão entre os grandes empresários - os senhores do mundo - é plausível admitir que a solução, para eles inevitável, terá de passar um dia pelo seu extermínio sem dor, através de um processo não muito distante da esterilização.
Todo o século XX ficará marcado pela interdependência e conluio, por razões meramente económicas, entre a miríade de ditadores que povoa o planeta e a grande indústria carente dos recursos que estes controlam. O seu apoio a ferozes acumuladores de riqueza justifica-se pois facilmente, dado que os mercados, em que posteriormente colocam os seus produtos, nada tem a ver com as massas esfomeadas que tais ditadores produzem.
Tratado como uma mera transacção económica, tem sido manifestamente vantajoso trocar cem toneladas de cobre extraídas a chicote, por um qualquer automóvel de luxo. As sociedades terminais vêm representando para o Ocidente uma mera jazida de matéria-prima paga a pataco. Tanto mais a pataco quanto o sistema obriga a apresentar-nos (enquanto consumidores) um produto competitivo.

A panaceia universal
Também nas sociedades consumidoras a antropofagia natural das sociedades produtoras se fará sentir, acentuando o fosso entre elas. Aquelas, ao perderem inevitavelmente para as sociedades produtoras os seus fornecedores de matéria-prima barata, (que vinham detendo por via de colonizações diversas) recorrem de imediato a um truque que os "grandes cérebros" dos seus sistemas económicos classificam de exemplar: a redução da remuneração dos seus operários, como contrapeso ao custo final do produto. Hoje as sociedades de consumo vivem este dilema permanente: incapazes de competir com as sociedades produtoras, sujeitas a dumpings sucessivos, sem recursos e com os seus mercados tradicionais arrebanhados pelas sociedades produtoras, vêm-se na contingência de fechar as portas ou, como contrapartida de subsistência, descapitalizar as suas respectivas populações laborais com os inerentes custos sociais. Completa-se, finalmente, o ciclo das populações com reduzido acesso ao consumo, incapazes de sustentar a mesma máquina produtiva que os sustenta. O ciclo da pescadinha-de-rabo-na-boca: se não há dinheiro não se consome, se não se consome produz-se para quê? Se não se produz, de que serve manter o que resta dos trabalhadores?
O seu primeiro ciclo. Aquele que transforma sociedades deslumbradas pelo consumo indiscriminado da produção estrangeira, em maltrapilhos e pedintes obrigada a despojar-se das suas reservas, de todos os valores transaccionáveis incluindo os valores morais, (a corrupção é disso mesmo um fenómeno típico) alienando o seu território à especulação e a interesses que vão desde o mero depósito de detritos das sociedades produtoras, até à exploração por terceiros das riquezas da terra. A outrora feliz e tresloucada sociedade consumidora, assemelha-se agora perigosamente, aos inconsequentes utentes de cartões de crédito que, de repente, se descobrem individados, vergonhosamente devassados, nas mãos dos bancos que lhes deu a lenha com que se queimaram.
Mil sociedades individuais de consumo em vias de hipotecar ao banco o seu apartamento na Brandoa.
As classes trabalhadoras, nesta fase, vêm no patrão o seu grande inimigo: explora o seu esforço laboral remunerando-o parcamente. Os patrões, por seu turno, vêm nas classes trabalhadoras um pesadelo cíclico que se lhes apresenta pontualmente todos os dias trinta. Antes ainda de anunciar a impossibilidade de satisfazer os seus compromissos para com os trabalhadores, recorre aos habituais subterfúgios ao seu alcance que incluem, desde logo, o não pagamento ao estado e sistemas de segurança social as contribuições devidas. Agravando de forma drástica o acesso ao consumo de muitos outros grupos. O estado ao ver-se obrigado a uma permanente injecção de fundos, por exemplo nos sistemas de aposentação, em conjunto com a baixa permanente da ratio população activa-reformado, sentirá uma natural tendência para o corte no valor real das pensões. O que, em conjunto com medidas semelhantes, que deverão ser tomadas em domínios tão diversos e importantes como a saúde, o ordenamento e a educação (esta última com a sua função primeira ignorada: a de formar não apenas cidadãos aptos para um mercado de trabalho muito competitivo, mas ainda consumidores esclarecidos e selectivos, capazes pela sua intervenção, de preservar o sistema imune ao escoamento indiscriminado da produção dos grandes manufactores, que se apoia, nas sociedades incultas, em regras primárias de marketing que seduzem pelo deslumbramento) tais medidas, dizíamos, só poderão levar ao mal-estar que é sinónimo da aproximação da passagem ao estado de sociedade terminal.

O segundo ciclo
Cada sociedade consumidora que cai, representa um rude golpe na grande teia industrial, limitando o escoamento da sua produção. As sociedades produtoras, porque agem isoladamente, não se vão dando conta de que, paulatinamente, se encurralam no próprio quintal. Como não é ainda um problema insolúvel, o qual de qualquer forma sabem não poder jamais vir a resolver directa e isoladamente, limitam-se a assestar baterias de forma mais enérgica, sobre os mercados restantes, nas mãos dos seus parceiros de competição. Enquanto restar uma sociedade consumidora, é para lá que convergirão os esforços de marketing de todos os produtores.
Contudo, inevitavelmente, chegará o dia em que os custos de aliciamento ao consumo, junto dos já poucos consumidores disponíveis, se tornará insuportável. O insucesso colectivo levará à descoberta de um vasto mercado desejoso de consumir que só não o faz porque os respectivos sistemas lhes não permite.
Pouco preocupados com a aparente semelhança da acção que vão empreender com os sistemas sociais de cariz Marxista, dois poderosos conjuntos de interesses se verão compelidos a unir esforços: a indústria e a banca.
Esta última que colheu os enormes benefícios resultantes do uso inconsequente do "cartão de crédito", tornando-se a proprietária, não de um apartamento na Brandoa, mas de toda a cidade, descobrir-se-á, após o deslumbramento inicial típico de cada novo-rico, incapaz de transformar em metal sonante as inúmeras propriedades, que de modo algum deseja gerir. É que, mais uma vez, não encontrará quem consuma o produto que oferece, agravado com a possibilidade de vir ainda a receber, mais uma vez como pagamento dos seus créditos, as próprias grandes indústrias sem soluções de escoamento. Triste e delirante destino o de se ser dono das ruínas de uma civilização.
A solução estará então à vista: é necessário derrubar todas as tendências para a usura e o aforro, remunerando os mais carenciados. A velha máxima revolucionária será então acrescentada com mais qualquer coisa: "A cada um segundo as suas necessidades, para que possamos escoar a nossa produção". O capital removerá do poder político a classe que anteriormente protegera. Manifestamente incapaz de absorver os fundamentos da nova dinâmica substitui-os por técnicos, gestores e policiadores de qualquer fuga ao princípio da distribuição equitativa dos recursos estagnados.
Numa lógica de mercado, recurso estagnado é todo o dinheiro acumulado visando apenas a sua reprodução e manutenção.
As funções do dinheiro são apenas as de comprar o trabalho e o seu resultado.
Será o fim do estado-mitra, dos abonos, das caixas de previdência e das pequenas contas a prazo para "prevenir a velhice". Com dinheiro nos bolsos ninguém precisa das instituições públicas de solidariedade. Os privados têm para quem produzir, competindo entre si em qualidade e em preço. O estado terá onde cobrar os seus impostos. A função primeira do imposto é a de retirar todos os excedentes - e só os excedentes - aplicando-os na coisa comum.

A crónica crise estrutural (e a consequente crise económica) deste país resolve-se em três tempos.
Que "alguém" nos pergunte como.


Hoje
A única tábua de salvação a que se poderão hoje agarrar as sociedades consumidoras, para evitar um dia o repescamento de entre as sociedades terminais, passa pela total inversão das respectivas políticas redutoras.
A demagogia que anima os seus governantes e as metas impossíveis que pretendem atingir, (tão ridículas como o de procurar vir a agarrar o "grupo da frente", cioso detentor do conhecimento tecnológico, investindo em pesquisa, formação e pós-formação, verbas inferiores às canalizadas para a preparação de um novo xarope para a tosse, por qualquer multinacional farmacêutica) leva-os a negar a inevitabilidade do colapso. Sendo que cada novo governante que entra, encontrará mais agudizadas as questões, que são em si mesmo, a razão de ser de toda a divergência política, gerindo o seu mandato na busca insana de panaceias para cada nova pústula, que brota de uma sociedade em contracção exponencial.
Sem tempo, nem sequer perspectiva para preparar o futuro.
O segredo para o sucesso da sociedade de consumo, afinal, devemo-lo a Marx:
Só uma distribuição equitativa poderá satisfazer o proletariado nas suas necessidades elementares, pois só este, e deste modo, será capaz de absorver o produto de uma sociedade que numa lógica de mercado, é forçada a produzir incessantemente.
O novo e inevitável Deus-Consumo, capaz de nivelar as sociedades, substituirá no coração dos homens todas as religiões e ideologias, já sem voz nem sentido, que não souberam estar com eles nem compreender as suas paixões.

Zero - 1999

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Leia a seguir o texto que nos foi enviado por T. M. Laura "a armadilha da globalização"

Explicação prévia
A ideia de globalização e o ataque às diversas soberanias nacionais por parte dos grandes conglomerados e multinacionais não tem nada de maquiavélico e é extremamente fácil de compreender.
Contrariamente ao que se defende nos dois artigos que se seguem, não há nada de mal em perder essa soberania. A realidade é que os diferentes governantes dos mais variados estados não conseguem resolver a questão fundamental: dividir de forma racional a riqueza do respectivo país por forma a que todos sejamos consumidores razoáveis.
Para os grandes accionistas mundiais donos de parcelas da GM, Coca-Cola, Ford ou McDonalds o único interesse que os move é o escoamento continuado da sua produção. Se os governantes mundiais são impotentes para os ajudar a atingir tal desiderato há que retirar-lhes o poder de decisão. O GATT, o AMI e muitos outros tratados, são passos nesse sentido: retirar aos países a soberania que tão mal têm usado e depô-la na mão de gestores interessados em gerir a riqueza de forma eficiente.
Por forma a que se compreenda melhor: a um qualquer dos grandes investidores da Coca-Cola, por exemplo, interessa-lhe muito pouco que um determinado milionário em Portugal gaste mensalmente menos de 1% da riqueza acumulada... Com os restantes 99% do seu dinheiro quantos portugueses não consumiriam uma maior quantidade de garrafinhas do famoso líquido?
Perder a soberania? O que é que interessa ao cidadão comum se quem o governa é português ou espanhol? Tira disso qualquer vantagem? Soberania? Alguém menos ingénuo acredita que qualquer das grandes decisões que nos dizem respeito são ainda tomadas em Portugal? Soberania? Os governantes deste país estão já hoje para a Europa quanto um Presidente de Junta de Freguesia está para o seu distrito.
Zero

O mundo cai na armadilha da globalização
Quando já se imaginava que o problema ideológico (capitalismo versus socialismo) houvesse chegado ao fim, com o encerramento da experiência socialista da ex-União Soviética, realizando-se assim a utopia do sistema ideológico único no mundo, de repente, parece que a transição russa para o capitalismo não será tão fácil como se presumia. O ex-império volta a conturbar o mundo, com a sua economia danificada, as suas armas atómicas intactas e, o mais grave, sem conseguir inserir-se num contexto de capitalismo sem grandes estragos tanto na sua política interna quanto na externa. Justamente quando está nascendo o mundo do novo milénio, com a sua nova sociedade, a sociedade 20 por 80, do mundo cibernético, dos computadores e do desemprego. De um capitalismo que tudo indica vai substituindo o lucro pela usura, liquidando os Estados em nome de alguns trilhões de dólares acumulados pela iniciativa privada.
O livro "A armadilha da globalização" , com algumas outras anotações intercaladas, dos jornalistas e cientistas sociais Hans-Peter Martin e Herald Schuman, da Editora Globo, é um roteiro para esse trabalho.

Mundo do novo milénio
Reúnem-se, em fins de setembro de 1995, 500 representantes da riqueza mundial no Fairmont Hotel. Ao fundo o Vale do Silício, da revolução dos computadores.
Presenças ilustres:
George Bush, George Schultz e Margareth Tatcher. Ted Turner, proprietário da CNN, que fundiu suas empresas com as da Time Warner. Washington SyChip, mandarim do comércio asiático. As maiores cabeças pensante de Stanford, Harvard e Oxford. Jonh Gage, dono de grande firma de computadores. O governador da Saxónia, Kurt Biedenkopf, Heulett-Packard, Lest Brown, director do Worldwatch Intitute, fundado em 1974 e ligado aos problemas do meio ambiente com preocupações ecológicas, etc...
As regras para os participantes:
Severíssimas: 5 minutos para falarem. Dois minutos para rebaterem. A imprensa à distância .
Jonh Gage: empregamos por computador e desempregamos também por ele.
Carter, presente para explicitar "diversão anestesiante e alimento suficiente" (entretenimento) faz parte do menu. O mundo não precisará - é o discurso dominante - de mais do que 20% de empregados para produzirem o necessário para a humanidade. O restante, 80% vai ter que se contentar com "entretenimentos": Os 80% de baixo terão enormes problemas! Para Scot MacNealy o problema do futuro será: "ter o que almoçar ou ser almoçado".

Nasce a "sociedade de um quinto".
A sociedade do Estado do bem-estar social torna-se uma ameaça ao futuro, na visão desses endinheirados homens. E o futuro, bem entendido e examinado, adquire a conotação de "retroagir". Portanto, "para trás, eis o lema do futuro". O Estado do bem estar social fora dos caminhos da iniciativa privada. Está nascendo também a sociedade do sacrifício social.
Heinrich Von Pierer (Presidente da Siemens), foi muito claro: "O vento da concorrência internacional tornou-se uma tempestade e o verdadeiro furacão ainda está por vir"
Desregulamentação é a palavra de ordem, liberalização do comércio e do fluxo de capitais, privatização de empresas estatais, temas logo assimilados pelos governos nacionais e pelas organizações internacionais: FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio.

O futuro
O futuro correrá nos trilhos da máxima eficiência e do mínimo salário. Hans-Peter Martin cita Karl Marx, com a seguinte frase que considera profética: " A tendência geral da produção capitalista não é de aumentar o nível médio das remunerações, mas sim de reduzi-lo, ou achatar o valor do trabalho até seu limite mínimo". O rebaixamento social das nações não desperta qualquer temor por parte dos participantes da reunião do "Fairmont Hotel". Os excluídos, os 80%, com o tempo, tornar-se-ão supérfluos, descartáveis, marginalizados.

Apocalipse
Embora a reunião de setembro de 1995 pareça haver estabelecido as bases da sociedade de 20 por 80, o livro "Armadilha da Globalização", apocalíptico, registra o seguinte:
"O que existe nos mercados financeiros segue à risca uma lógica largamente comprovável e é provocado pelos próprios governos dos grandes países industrializados. Em nome da doutrina da intocabilidade do mercado livre, desde a década de 1970 (Canadá, Estados Unidos, República Federal da Alemanha, Suíça, etc ) vêm demolindo as cancelas que permitiam administrar o trânsito de dinheiro e o fluxo de capitais na passagem das fronteiras, em função das exigências dos grandes bancos e da rápida expansão industrial. Depois viria o Japão, Inglaterra, França, e a iniciativa privada, através dos bancos e fundos de pensão acumularam entre 6 a 7 trilhões de dólares apenas naquela década..
Jonh Major, ex-primeiro ministro da Inglaterra: "É inadmissível que manobras nos mercados financeiros ocorram com tamanha velocidade e numa ordem de grandeza que as colocam totalmente fora do controlo dos governos e instituições internacionais"
Lamberto Dini, presidente do Banco Central Italiano: "Não devia ser permitido aos mercados minarem toda a política económica de um país"
Jacques Chirac, presidente da França: A globalização é a SIDA da economia"
Voltando a Bretton Wood, no pós-guerra de 45
No Primeiro Mundo, o empobrecimento da classe média vai se tornando um facto consumado. As quedas das receitas governamentais por conta de isenções de impostos que atendem à usura do capitalismo são grandes responsáveis No Terceiro Mundo os dados são mais alarmantes, sobretudo no tocante à explosão demográfica..

O discurso político do próximo século
Ou os Estados Unidos tomam a decisão de reverter o processo de globalização em função do velho Estado de bem estar social, imaginado, diga-se de passagem, por Franklin Roosevelt, ou a Europa poderá fazer isto se o Tratado de Maastricht for vitorioso. Mas cabe perguntar, ainda, se Europa e Estados Unidos deterão a globalização da economia ou se preferirão se engalfinhar numa nova luta pela hegemonia económica do mundo.
Quanto aos políticos e governos do Terceiro Mundo, ajoelhados diante da globalização, restam-lhes ir administrando a miséria e as inquietações sociais dos seus países.
Do lucro à usura, eis o grande salto do capitalismo desde a década 70, e agora sistematizado pelos homens mais ricos do mundo, reunidos no Fairmont Hotel.

Fragilidade da globalização
Algo meio fictício no dizer de Luís Veríssimo, como Bolsa de Valores, faz despencar impérios. E um país da dimensão da ex-União Soviética, que encerrou uma experiência político-militar-burocrática, faz tremer os alicerces do mundo através de uma economia danificada e um destino incerto. Sem contar que por ali se tem conhecimento de um arsenal atómico que parece não haver sido desactivado a ponto de a humanidade poder dormir tranquila.

Hora da opção
Ocorrerá quando a globalização atingir o seu nível crítico. Quando alguns países que levaram a globalização a nível crítico mostrarem a sua verdadeira e triste face de país neocolonizado. Tanto do ponto vista económico quanto cultural , e então perdidos na miséria económica e nas suas lembranças em cujos atavismos estão inscritas as glórias que marcaram os seus nascimentos como Estado e Nação, esboçarão alguma reacção, em função da evasão dos seus bens e do futuro dos filhos e netos.
O capitalismo, na ronda dos séculos, tal uma serpente, vem expulsando todas as demais correntes do pensamento da formulação de uma doutrina de Estado. Isolou-se: isso é gravíssimo ! E tem extrema dificuldade para dividir os seus lucros. E mais ainda inserir, na estrutura complicadíssima do livre mercado, uma economia do tamanho do ex-União Soviética, quando se sabia da sua incapacidade de acompanhar a tecnologia ocidental. E precisa resolver outra questão crucial: ter uma melhor política com relação aos bloqueios económicos que impõe àquelas nações que por acaso lhe contestam o direito de ser uno e universal, espécie de pai do universo...

O fim da história
Nada nos garante que mesmo a realização de objectivos superiores colocados acima das nossas individualidades possa ser considerada a felicidade, na interpretação de Giorg Hegel. E poderemos estar caindo na sua velha afirmação: "A história não é o reino da felicidade. As épocas de felicidade são apenas as suas páginas vazias...", então estaremos sempre a rescrever a história. Como farsa, ou como tragédia, eis a questão.
In: Gazeta de Alagoas - 13.08.98

AMI, nova ameaça à soberania dos países emergentes
in:
Texto explicativo
O neoliberalismo perde qualquer noção sobre o ser-humano e a auto-determinação dos povos, canonizando o Rei-Mercado como uma espécie de "lei natural" a ser seguida pela humanidade. Negociado há três anos, e contando com a participação subserviente de sempre do governo brasileiro, o "Acordo Multilateral de Investimentos" (AMI) é o novo e mais cruel instrumento das transnacionais para subjugar os povos, sobretudo os subdesenvolvidos
Este acordo, que já é o maior tratado econômico-político-jurídico da história da humanidade de que se tem notícia, colocará os Governos nacionais de mãos atadas, criando uma espécie de "imunidade às empresas multinacionais" em seus investimentos por todo o planeta. As negociações para este acordo vêm sendo feitas às escondidas pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de maneira quase clandestina, devido às conveniências econômicas que trará, e por temor às reações a exposição pública deste tratado venha a provocar.
Contrariando tudo o que se conhece sobre Direito Internacional, o texto do Acordo consegue acabar com qualquer risco de prejuízo para o investidor estrangeiro, que estará sob o ônus dos contribuintes do país que receber seus investimentos. O Acordo determina a desregulamentação total do Estado: nenhuma lei poderá restringir a livre atuação da empresa estrangeira.
De acordo com a legislação do AMI, as empresas não precisarão seguir as regras salariais e as Leis Trabalhistas do país em que estiver investindo. Os Estados nacionais também não poderão adotar políticas específicas de desenvolvimento dentro de seu país, sob o argumento de estar "interferindo na livre determinação das forças de mercado". Nesta legislação, por exemplo, o Brasil não poderá adotar qualquer política de estímulo a pequenos agricultores do Nordeste, por exemplo, pois poderá ser processado por uma grande multinacional do setor alimentício, indo parar no banco-dos-réus de algum tribunal internacional. E o Acordo também estabelece que os Tribunais que irão julgar estes processos deverão ser escolhidos pelas empresas.
Os países terão de indenizar as empresas até mesmo por "oportunidade de lucros perdidas" ou "prejuízos a planos futuros de investimento". No primeiro caso, o investidor estrangeiro que estiver no Brasil, e resolver mudar de uma hora para outra suas empresas para a Argentina, se se arrepender, poderá reclamar compensação financeira do governo brasileiro.
O segundo caso já tem um exemplo que pode ser observado no Canadá, que está sob a legislação do Nafta, muito menos liberalizante que a do AMI. Lá, a empresa americana Ethyl está reivindicando U$ 251 milhões de dólares do governo canadense, que condenou a neurotoxina MMT de prejudicar os dispositivos anti-poluição dos automóveis. A Ethyl é a única produtora do MMT, e por incrível que pareça o processo vai ser julgado com possibilidades de vitória para a empresa.
A sociedade não poderá pressionar por qualquer de seus direitos, através, por exemplo, de greves, pois isso poderá ser interpretado como "restrição à librdade comercial", e o país vai parar nos Tribunais.O Governo também não poderá determinar qualquer subsídio a algum setor de sua economia nacional, pois pode ser interpretado por um conglomerado internacional como um prejuízo a seus ionvestimentos no país, o que lhe dará o direito de pedir indenização. Os documentos que se seguem foram obtidos graças às pesquisas do jornalista independente sRubem de Azevedo Lima, que partiu do artigo do jornalista Mauro Santayana, no Correio Braziliense, de 29/03/98, "Os Olhos e o Sol", que estaremos publicando muito em breve.
Acordo Multilateral sobre Investimento (AMI)- Artigo de Lori M. Wallach , diretor da Public Citizen's Global Watch, Washington, DC. USA. Publicado na edição de fevereiro de 1998, de Le Monde Diplomatique, com os seguintes antetítulo e título:
Elaborado na OCDE, à revelia dos cidadãos

O NOVO MANIFESTO DO CAPITALISMO MUNDIAL
É preciso remontar aos tratados coloniais mais leoninos para encontrar exposição com arrogância tão dominadora quanto a do Acordo Multilateral sobre Investimento (AMI), no tocante aos direitos imprescritíveis do mais forte - no caso, as sociedades transnacionais - e às obrigações draconianas impostas aos povos. A tal ponto que os negociadores fazem segredo de um texto elaborado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OCDE), que o governo francês se apressa em assiná-lo, a se dar crédito ao comunicado dos serviços do primeiro ministro [ Leonel Jospin} , em 7 de janeiro, segundo o qual "as regras do AMI contribuirão para assegurar a solidez do quadro jurídico do comércio."
Imaginem um tratado comercial que autorize as empresas multinacionais e os investidores a processarem os governos, diretamente, na justiça, para obterem indenização e juros compensatórios, contra qualquer política ou ação pública de que resulte a diminuição de seus lucros. Isso não é intriga de romance de ficção científica sobre o futuro totalitário do capitalismo. É apenas uma das cláusulas do tratado que está em vias de ser assinado, mas é desconhecido: o AMI. O diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Renato Ruggiero, descreveu com muita exatidão a natureza desse tratado: "Nós escrevemos a Constituição de uma economia mundial unificada."
Poucas pessoas sabem que o AMI está em negociação desde 1995, na OCDE, em Paris. Os 29 países membros dessa organização, dentre os mais ricos do mundo, querem entender-se, antes de apresentar aos demais países em desenvolvimento um tratado para aceitarem como estiver. O objetivo do acordo é estender o programa de desregulamentação sistemática da OMC a todos os setores vitais ainda não alcançados por essa organização. Vale dizer: a localização e as condições de investimento na indústria e nos serviços, as transações sobre divisas e instrumentos financeiros como as ações e obrigações, a propriedade fundiária e os recursos naturais...
Nos últimos decênios, embora o mundo tenha sido convulsionado por uma verdadeira explosão de movimentos planetários de capitais, o investimento atraiu menos atenção da opinião pública, da imprensa e do poder público do que a atividade comercial. Mas as empresas transnacionais e os grandes estabelecimentos financeiros estão particularmente atentos a esse assunto. Com paciência e agressividade, agiram para que as regras gerais sobre investimentos atendam aos seus interesses particulares e assegurem a extensão e a consolidação do poder que exercem sobre os Estados.
Os legisladores e os cidadãos foram mantidos na ignorância das tratativas, embora o texto da OCDE (190 páginas) já esteja 90% fechado. Foi só depois da ofensiva dos movimentos de cidadãos americanos contra o processo da negociação comercial dita de via rápida (fast track) (1) , em abril de 1997, que o Congresso dos Estados Unidos tomou conhecimento das negociações do AMI, conduzidas havia três anos pelos Departamentos de Estado e do Tesouro norte-americanos.
O muro de silêncio ultrapassa os EUA. Na França, o presidente da comissão de Assuntos Estrangeiros da Assembléia Nacional, Jack Long, portanto com interesse no assunto, declarou em dezembro de 1997: "Ignoramos quem negocia o quê em nome de quem". (2) Os funcionários americanos negaram a existência do texto até o dia em que em uma coalizão internacional dos movimentos de cidadãos conseguiu uma cópia dele. Apesar da resistência do Departamento de Estado, de seus parceiros e da OCDE, essa cópia está acessível, hoje, na Internet. (3)
Como a maior parte dos tratados internacionais, o AMI estabelece uma série de direitos e obrigações, mas com uma diferença fundamental: os direitos nele estabelecidos são reservados às empresas e aos investidores internacionais. Cabe aos governos assumir todas as obrigações. Além disso, uma inovação sem precedentes, no AMI: os estados ficam presos irrevogavelmente ao acordo por vinte anos. Um dispositivo proíbe a todos a manifestação da vontade de retirar-se do tratado antes de cinco anos. Após esse prazo, aquele que manifestar a intenção de se desligar do acordo, tem de continuar nele por quinze anos suplementares.
O capítulo chave do tratado se intitula "Direitos dos Investidores". Nele figura o direito absoluto de investir - comprar terras, recursos naturais, serviços de telecomunicações ou outros, divisas - nas condições de desregulamentação previstas pelo tratado, isto é: sem nenhuma restrição. Os governos têm a obrigação de garantir a plena fruição desses investimentos. Numerosas cláusulas prevêem indenizações aos investidores e às empresas, no caso de intervenções governamentais suscetíveis de restringir a capacidade de obterem lucro com os investimentos. Em particular, se os investidores ou investimentos sofrerem o efeito equivalente a uma expropriação, mesmo indireta. Assim, nos termos do acordo, a perda de oportunidade de lucro sobre o investimento seria um tipo de prejuízo suficiente para dar direito à indenização ao investidor
As regras relativas às expropriações e indenizações são os dispositivos mais perigosos do AMI. Elas conferem a cada empresa ou investidor estrangeiro o direito de contestar praticamente não importa que política ou ação governamental - desde as medidas fiscais às disposições em matéria de meio ambiente; da legislação do trabalho às normas de proteção ao consumidor e ameaças potenciais sobre lucros. Portanto, os estados - que praticam, em toda parte, cortes claros nos programas sociais - são chamados a aprovar um programa mundial de assistência às empresas transnacionais.
Premonitório, a esse respeito, é o caso da sociedade Ethyl. Essa empresa, sediada nos EUA, apóia-se em dispositivo muito menos favorável do que os da AMI, os do Acordo de Livre Comércio Norte-Americano (ALENA), para reclamar US$ 251 milhões (cerca de um bilhão e meio de francos franceses) ao governo do Canadá. Em abril de 1997, Ottawa tinha proibido o uso de um aditivo à gasolina, denominado MMT, uma neurotoxina suspeita de prejudicar os dispositivos antipoluição dos automóveis. A Ethyl, única produtora do MMT, propôs uma ação contra o governo canadense, argüindo que a proibição de seu uso no Canadá equivalia a uma expropriação de bens da companhia. Por incrível que possa parecer, o processo vai ser julgado. Se a Ethyl ganhar, os contribuintes canadenses deverão pagar US$ 25l milhões àquela empresa privada. Imagina-se que tal mecanismo paralisará qualquer ação governamental em defesa do meio ambiente e dos recursos naturais, de garantia da segurança e eqüidade nas condições de trabalho, ou da orientação para investimentos em serviços de interesse coletivo.
Outro direito à indenização dos investidores: a proteção contra as desordens. Os governos são responsáveis, perante os investidores, pelas desordens civis, sem falar de revoluções, estados de emergência ou outros acontecimentos similares. Significa isso que eles têm a obrigação de garantir os investimentos estrangeiros contra todas as perturbações que possam diminuir seus lucros, sejam elas movimentos de protesto, boicotes ou greves. O que equivale a encorajar os governos, sob a proteção do AMI, a restringir as liberdades sociais.
Em contrapartida, esse acordo não prevê nem obrigações nem responsabilidades para os investidores. Os governos não podem fazer diferenças entre os investidores estrangeiros e nacionais. E, pelo projeto de tratado, é o impacto de uma política, e não suas intenções nem o sentido literal dos textos da lei, que deve ser levado em consideração. Assim, devem ser ab-rogadas as leis aparentemente neutras, mas quanto às quais se possa demonstrar que têm efeito discriminatório não-intencional, sobre o capital estrangeiro.
Textos que fixem limites ao desenvolvimento das indústrias extrativas, como no caso de indústrias de mineração ou florestais, poderão ser denunciados por efeito discriminatório contra investidores estrangeiros que desejem ter acesso a tais recursos, em relação aos investidores nacionais que já atuem na mesma área!
Da mesma forma, as políticas geralmente de ajuda às pequenas empresas ou de tratamento preferencial em prol de certas categorias de investimentos e investidores, como os programas da União Européia - em favor das regiões menos desenvolvidas - poderão também ser atacadas. O mesmo risco paira sobre os programas de distribuição de terra aos trabalhadores do campo, nos países em desenvolvimento.
Para ser admitido na ALENA, modelo do AMI, o México teve de suprimir dispositivos de sua Constituição, relativos à reforma agrária, após sua revolução. Isso para que os investidores americanos e canadenses pudessem comprar as terras reservadas aos mexicanos. Balanço dos quatro primeiros anos de aplicação da ALENA: a destruição em massa do pequeno trabalhador rural, enquanto as multinacionais do setor agro-alimentar ampliavam suas imensas explorações fundiárias.
As regras para tratamento nacional dizem respeito igualmente às privatizações. Assim, se qualquer municipalidade francesa privatizar o serviço de água - o que a maioria já fez - aos interessados do mundo inteiro devem ser oferecidas as mesmas condições de acesso concedidas aos franceses. Não importa que se trate de uma sociedade de economia mista, sob controle democrático. Quando virá a privatização da educação e dos serviços de saúde ? [o articulista suscita essa hipótese, face à letra do texto do AMI].
O AMI proibe também as medidas adotadas por muitos países: a orientação dos investimentos com vistas ao interesse público, tais como a exigência de emprego para a mão-de-obra local ou para certas categorias de pessoas, os deficientes, por exemplo. Por igual, muitas outras leis e normas sobre meio ambiente poderão ser contestadas. Ficarão sem efeito, em particular, sob o peso do AMI, as medidas adotadas por vários estados dos EUA, que exigem que as embalagens em vidro ou plástico tenham uma porcentagem mínima de produtos reciclados e as tarifas preferenciais concedidas aos materiais fabricados com esses produtos.
O AMI ameaça a legislação de certos países do hemisfério sul, que procuram promover o desenvolvimento econômico nacional e exigem, dos investidores estrangeiros, parceria com empresas locais ou o recrutamento e a formação de quadros nacionais.
O acordo grava igualmente, no mármore, a cláusula da nação mais favorecida, pois requer tratamento igual entre todos os investidores estrangeiros. De agora em diante, proibe-se aos governos a prática de discriminações contra investidores alienígenas, em razão da postura de seus respectivos governos face aos direitos humanos, de trabalho ou critérios outros. A proibição alcança também o tratamento preferencial dado pela União Européia às antigas colônias da África, do Caríbe e do Pacífico, em função dos acordos de Lomé. Se o AMI existisse nos anos 80, Nelson Mandela continuaria preso, pois esse acordo proíbe a sabotagem contra investimentos ou restrições feitas a eles, como as que ocorreram no encontro de Pretória, ao tempo do apartheid. O AMI só admite exceção, no caso, por motivos de segurança fundamental.
Enfim, o AMI transformará o exercício do poder em todo o mundo, pois submeterá às imposições das multinacionais um grande número de funções hoje exercidas pelos estados, como a aplicação dos tratados internacionais. O acordo concederá, de fato, às empresas e investidores privados os mesmos direitos e o mesmo estatuto conferidos aos governos nacionais para aplicar suas cláusulas. Particularmente, esse é o caso de processar os governos em tribunais de sua livre escolha. Um destes é o júri arbitral da Câmara de Comércio Internacional ! Diante de árbitros também parciais, aos investidores é assegurado o direito de obter as indenizações compensatórias que reclamarem, na hipótese de não terem os lucros com que contavam, nos termos do tratado.
O texto contém dispositivo que obriga os estados a aceitar, incondicionalmente, a submissão dos litígios à arbitragem internacional, obrigação esta da qual eles estavam livres, até agora, devido ao privilégio da soberania. Tais ações são permitidas às empresas e aos investidores, mas não aos cidadãos e às suas associações. O acordo prevê ainda a solução dos conflitos de estados com estados, pela via das jurisdições internacionais, no modelo estabelecido pelo OMC, com processos opacos, sem garantias judiciárias.
Sobre os termos do acordo, os porta-vozes dos governos e dos círculos de negócios limitam-se a generalidades: "Não se preocupem ", dizem eles, em substância. E acrescentam: "Não há nada de novo nesse tratado. Trata-se apenas de nacionalizar as práticas já existentes." Mas o AMI, como um Drácula político, não pode viver sob a luz. No Canadá, a revelação de sua existência provocou uma tempestade política maior do que o tratado de livre comércio com os Estados Unidos, há dez anos. Nos EUA, ele foi duramente criticado pelo Congresso.

UM BOLO DE ESTRICNINA
Curiosamente, os que deviam estar mais mobilizados, os movimentos sindicais, representados no âmbito da OCDE pelas confederações internacionais, limitaram-se a propor, sem êxito, a inclusão, no AMI, de uma cláusula social, ao invés de questionar os próprios fundamentos do acordo. Essa posição foi denunciada pelos movimentos dos consumidores, associações de defesa dos direitos humanos, de proteção ambiental, bem assim por um número cada vez maior de sindicatos. Todos estes consideraram a proposta dos representantes das confederações uma cobertura açucarada sobre um bolo de estricnina.
Nem os representantes dos governos nem os dos círculos de negócios têm a intenção de introduzir dispositivos inibidores no AMI. Nesse particular, a estratégia dos interessados consiste em prever numerosas exceções e reservas, o que revela a dimensão da ameaça do acordo. Não é tranquilizadora a perspectiva de guardarem nossos objetos de valor embrulhados em papel, enquanto atiram gasolina em nossa casa em chamas. Assim, os governos canadense e francês se ocupam com ardor em obter as exceções culturais, no instante em que os negociadores americanos seguem as ordens de Hollywood, que pretende, graças ao AMI, exercer hegemonia sobre todas as indústrias da cultura, sem partilhá-la com ninguém.
Os anos de experiência do GATT, depois da OMC, e de tantos outros tratados comerciais internacionais, demonstram amplamente que as exceções, na maior parte do tempo, não oferecem nenhuma garantia. Os plantadores de banana do Caribe acabam de verificar que as cláusulas de acesso preferencial ao mercado europeu, contidas na convenção de Lomé, foram varridas pela ofensiva americana, face à OMC, e a União Européia acabou sendo condenada em definitivo. O AMI contém dispositivos que proíbem os estados de intervir, no futuro, em setores protegidos pelo acordo, e que ainda exigem a obrigação de ab-rogar todas as leis incompatíveis com as novas regras.
Quem tem interesse em seguir avante na desregulamentação dos investimentos e desengajamento do estado, no instante em que os resultados da mundialização se mostram desastrosos ? A partir de agora, cada governo que se esforça em responder à demanda pública de soluções para os grandes problemas econômicos e sociais, deve fazê-lo num contexto internacional de instabilidade monetária, de especulação, de movimentos maciços e erráticos de capitais e de investimentos sem fronteiras. Uma situação que talvez não dure. Salvo para uma pequena minoria, que tem interesse em que ela piore.

(1)- O processo fast track consiste, para o Congresso, em autorizar o presidente a firmar acordos comerciais, aos quais os representantes não poderão depois adicionar emendas, cabendo-lhes apenas ratificar ou rejeitar os textos aprovados. O presidente Clinton, verificando não dispor de maioria para aprovar o fast track, renunciou a essa prerrogativa, para negociar uma zona de livre comércio nas Américas.
(2)- Intervenção na conferência-debate sobre "Mundialização e democracia: os perigos do AMI" , na Assembléia Nacional, em 4 de dezembro de 1997.
(3)- Graças ao movimento de defesa dos consumidores Public Citizens, fundado por Ralph Nader: www.citizen.org. Le Monde Diplomatique publica, em seu site, a versão do AMI, em idioma francês, datada de 8 de outubro de 1997, no endereço www.monde-diplomatique. fr/md/dossiers/ami/
Observação- A OCDE, de acordo com o Almanaque Abril de 1997, se compunha, nesse ano, de 26 países membros. O texto do Le Monde Diplomatique, de fevereiro último, já fala em 29 membros. As 26 nações são as seguintes: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Irlanda, Islândia, Itália, Japão, Luxemburgo, México, Noruega, Nova Zelândia, Portugal, Reino Unido, República Tcheca, Suécia, Suíça e Turquia.
A organização é um fôro para a coordenaçào das políticas econômicas e sociais dos países-membros. Tais nações (são dados do almanaque) produzem, juntas, dois terços de todos os bens e serviços do mundo, sendo por isso conhecidas como o "clube dos ricos". Foi criada em 30 de setembro de 1961, para substituir a Organização de Cooperação Econômica Européia, que desde 1946 administrava a ajuda dos EUA e do Canadá para reconstrução da Europa no pós-guerra, sob o Plano Marshall. Entre seus objetivos estava o de promover o bem-estar econômico e social dos membros e estimular os financiamentos nos países em desenvolvimento. Seu orçamento anual é de US $ 300 milhões. Tem dois mil funcionários na secretaria, cuja sede é em Paris. Além disso conta com 700 economistas, cientistas, advogados e outros profissionais especializados em cerca de duzentos grupos e comitês de estudos, que incluem áreas como agricultura, livre-comércio, impostos, energia, desenvolvimento etc. A OCDE analisa, atualmente, a situação de cada país membro.
Informação adicional, da área diplomática: os países não-membros têm direito de enviar observadores às reuniões da OCDE. Nas reuniões de debate do acordo multilateral sobre investimentos estaria presente, pois, segundo a informação, um representante do Brasil.
Acordo Multilateral sobre Investimento- Documento n. 2

O amigo que assusta os europeus
Artigo de David Rowan, de The Guardian, transcrito no Courrier International, n. 381, pág. 17, da semana de 19 a 25 de fevereiro de 1998, sob o título e subtítulo Europes - Multilatéral - Investissements: Cet AMI qui inquiète les Européens
Vocês pensam que Bruxelas [ sede da Comunidade Econômica Européia (CEE), da Comunidade Européia de Carvão e Aço (CECA), e da Comunidade Européia de Energia Atômica (EURATOM)] avança sobre a soberania dos Estados ? Pois ela é uma brincadeira comparada com o Acordo Multilateral sobre Investimentos (AMI), em preparo pela OCDE. O AMI pode reduzir a frangalhos as prerrogativas dos Estados.
Vocês talvez ainda não tenham ouvido falar no AMI. Por um motivo simples: esse acordo se negocia há três anos, no maior segredo. Os países que dele participam estão empenhados em manter as negociações fora do conhecimento público. Durante o ano passado, elas não foram mencionadas nem vinte vezes por toda a imprensa britânica.
Mas se todos têm consciência do poderio crescente das empresas transnacionais e receiam que, num dia ou noutro, os Estados possam curvar-se às exigências das empresas globais, é tempo de ficar alerta . Esta semana será, talvez, decisiva. Enquanto discutimos os perigos que Bruxelas pode causar ã soberania das nações, os investidores internacionais se preparam para reconsiderar certos requisitos essenciais à democracia.
Os representantes dos 29 países mais ricos do planeta reúnem-se em Paris (dias 16 e 17 de fevereiro), para concluir um acordo que dará às multinacionais poderes sem precedentes. O AMI permitirá que tais empresas processem os Estados cujas leis, ao porem em desvantagem as empresas estrangeiras, prejudiquem a rentabilidade dos seus investimentos. Esse acordo multilateral comprometeria a execução dos tratados internacionais da ONU sobre alterações climáticas e controle da pesca, ameaçando ainda as leis sobre trabalho e meio ambiente, adotadas democraticamente. Mais do que tudo isso, porém, o AMI consagra a preponderância das empresas globalizadas sobre os Estados, que ficariam reduzidos à impotência.
Objetivo declarado do acordo: permitir que os investidores internacionais lutem com armas idênticas uns com os outros, em todo o mundo. Ao definir um novo conjunto de regras em matéria de investimentos, o AMI dá às empresas o direito de comprarem, venderem e transferirem suas filiais para onde acharem melhor, independente de qualquer regulamentação local. Essa nova liberdade concedida aos investidores reativaria, segundo a OCDE, o crescimento e o emprego, contribuindo, pois, para a melhoria do nível de vida.
O AMI, que se pretende ratificar em abril, pelos ministros dos países da OCDE, inclui-se no conjunto de tratados internacionais sobre comércio, como o GATT e ALENA. Mas ele vai mais longe, ao preparar a livre circulação de capitais através do planeta. No dizer de Renato Ruggiero, diretor geral da OMC: "Nós estamos escrevendo a Constituição de uma economia mundial única."
O acordo ameaça tirar o
significado de nosso voto
Grupos cada vez mais numerosos decidiram fazer campanha contra o acordo. E é, de fato, curiosa essa "Constituição", na qual se declaram apenas os direitos dos investidores. O AMI foi lançado por iniciativa das grandes empresas. Das 500 maiores sociedades mundiais, segundo classificação da revista Fortune, 477 estão sediadas nos países da OCDE, que esperam, com o acordo, facilitar os investimentos internacionais. Mais de 85% dos investimentos diretos estrangeiros provêm dos países da OCDE e são feitos nos países em desenvolvimento. Com a mundialização, esse tipo de investimentos está em forte progressão e é mais importante do que as operações comerciais.
No momento, os investidores se queixam de estar em desvantagem relativamente aos seus iguais, nos países receptores de investimentos. O texto do AMI assenta-se em três princípios fundamentais:
+ A não-discriminação (os investidores estrangeiros não devem ser punidos em relação às empresas nacionais);
+ A eliminação de restrições ao seu ingresso ( os signatários não podem opor-se a qualquer forma de investimento estrangeiro - inclusive para aquisição de empresas privatizadas - exceto no setor de defesa);
+ A eliminação de condições particulares (destinadas, por exemplo, a preservar o emprego local ou a controlar a especulação no mercado de câmbio).
A definição de investimento é muito ampla, de modo a englobar a propriedade intelectual, imobiliária e de ações. Após assiná-lo, um país não pode retirar-se do AMI antes de passados cinco anos. Ainda assim, após esse período, fica ligado ao acordo por mais quinze anos. Qualquer infração confere à multinacional atingida o direito de processar o governo culpado, local ou nacional, diante de um tribunal internacional. As empresas podem reclamar indenizações pelos prejuízos sofridos e por males já ocorridos ou em potencial.
Segundo as organizações não-governamentais (ONGs) - das quais mais de 600, em 67 países se associaram para combater o acordo - o AMI ameaça tornar inútil o voto dos cidadãos. Essas organizações fazem pensar em "supercidadãos": grandes empresas livres das obrigações dos cidadãos comuns, principalmente em relação ao meio ambiente e aos salários.
Até mesmo em livro que editou, a OCDE reconhece que "como todo acordo internacional firmado entre signatários, o MIA atenua, em certa medida, o exercício da autoridade nacional." O livro faz, em seguida, uma concessão moderadamente tranquilizadora: "Os governos conservarão a liberdade de regulamentação na maior parte dos setores, desde que a regra da não-discriminação seja respeitada. "

Surgem sinais de inquietação
nos países signatários
O acordo terá enorme repercussão sobre o meio ambiente. Segundo os Amigos da Terra, o AMI permite às empresas se oporem ao acordo de Kioto, em virtude do qual os países industrializados fornecem aos países em desenvolvimento tecnologias que "respeitem o clima"", em troca dos direitos de poluírem. Tais regras podem ser consideradas subvenções anticoncurrenciais. O AMI poderia questionar a Convenção das Nações Unidas, sobre biodiversidade, concebida para proteger os recursos genéticos dos países em desenvolvimento. As multinacionais estrangeiras exigem o direito irrestrito de acesso a tais recursos.
Os mais inquietos em face do AMI são os países em desenvolvimento. Eles serão convidados a assinar o acordo, tão logo seu texto esteja pronto. Assim, estes signatários não terão podido influir em seu conteúdo. E, como dependem desses investimentos - que bom número de países considera vitais - os que pensam assim terão dificuldades para resistir à tentativa de ratificar o AMI. Dos 112 bilhões de dólares (680 bilhões de francos franceses) investidos nos países em vias de desenvolvimento, mais de 80% do total se concentraram em doze países. Os 48 estados menos desenvolvidos (que representam 10% da população mundial) atraíram menos de 0,5% do total mundial de investimentos. Pertencer ao grupo de países signatários poderá transformá-los em novos mercados sem restrições para os fabricantes de cigarros ou de alimentos para crianças, bem assim para todos que se interessam por suas florestas e recursos mineirais.
Certos fatos permitem, no entanto, admitir que a oposição crescente ao AMI pode ainda atrasar sua assinatura. As ONGs transformaram o assunto em sua prioridade. Segundo Nick Mabey, encarregado da política econômica na WWF, o AMI é, "hoje, mais importante do que o aquecimento do planeta. Digitem MAI (sigla do acordo em inglês) , na Web e todos obterão mais de mil sites, dos quais, à exceção dos da OCDE, nenhum faz a defesa do acordo." Sem contar que certos sinais de inquietude começam a surgir entre os próprios futuros signatários do AMI.

País por país
O material que se segue consta de um 'box" no artigo de David Rowan , transcrito acima, publicado pelo Courrier International, no mesmo n. 381. O título do "box" faz jogo de palavra com a expressão AMI (que em francês significa amigo): Os inimigos do AMI.
Não há nenhuma exceção cultural além da francesa. Numerosos países têm leis em contradição direta com as exigências do AMI. Se o acordo for assinado, eis as medidas que os países seguintes terão de abandonar, para se habilitarem a receber investimentos estrangeiros.
Austrália- Os estrangeiros que desejarem investir mais de cinco milhões de dólares australianos, em empresa já existente, ou criar uma nova estrutura no montante de dez milhões de dólares ou mais, devem submeter-se a um processo que garanta que seu projeto não é contrário ao interesse nacional.
Canadá - Os estrangeiros que quiserem investir nos setores de gás e de petróleo devem comprometer-se a favorecer o aproveitamento de trabalhadores locais e a se abastecerem nas empresas locais.
Chile - O repatriamento dos capitais é proibido no ano seguinte ao do investimento.
Colômbia - Os investimentos estrangeiros são proibidos no tratamento ou eliminação de rejeitos tóxicos ou radioativos, não produzidos no país.
Estados Unidos - Certos estados restringem a utilização, por não-residentes, de terras dominiais, para fins de pastagem ou extração de minerais, de gás e de petróleo.
México - Os estrangeiros não podem possuir bancos de desenvolvimento ou caixas de crédito mútuo.
Nova Zelândia - Têm de submeter-se à aprovação os investimentos estrangeiros diretos, que abram o controle de bens considerados"importantes", como empresas de valor superior a dez milhões de dólares neo-zelandeses. Taiwan - Os investimentos estrangeiros em "indústrias altamente poluentes" são proibidos.
Venezuela - O número de trabalhadores estrangeiros é limitado a 10% nas empresas de mais de dez assalariados. Além disso, tais trabalhadores não devem representar mais de 20% da massa de salários.
Fonte: "The Guardian"
Tradução e assessoria do jornalista Rubem de Azevedo Lima

Davos: o encontro do
dinheiro com o poder


Reunidos em Davos no 30o encontro do Fórum Econômico Mundial, os empresários mais ricos do mundo convocaram intelectuais e líderes políticos para refletir sobre o tema "Novos começos: fazendo a diferença". A chamada do Fórum induz a se pensar que os paladinos da globalização teriam escutado os protestos de Seattle e estariam dispostos a pensar novos rumos para a ordem internacional. Nada mais equivocado.

Concebido como uma espécie de feira livre, onde magnatas, tecnocratas, pseudo-intelectuais e governantes discutem os meios de aprimorar a ordem global, o Fórum funciona como simpósio anual do grande capital. O encontro da riqueza com a política e com a inteligentzia serve para prospectar novos negócios, definir a agenda política do grande capital e afinar o discurso ideológico.

Pelo andar da carruagem, é possível identificar três tendências.

Os negócios, como sempre, surgirão do encontro do dinheiro com o poder. A necessidade de negócios em escala cada vez maior exige novo salto no processo de globalização dos negócios. Por isso, ao contrário do que se poderia supor levando em consideração a crescente vulnerabilidade da economia mundial, não se deve esperar restrições à livre movimentação do capital. No máximo, os donos do poder reforçarão os cintos de segurança e incrementarão os capacetes (melhorando os instrumentos capazes de administrar as crises financeiras), uma vez que todos sabem que a velocidade da globalização só vai aumentar.

A impossibilidade de ignorar a crescente oposição à globalização no interior das próprias potências hegemônicas obriga os donos do poder a introduzir algumas mudanças na agenda. Principal porta-voz da ordem global, Bill Clinton não perdeu tempo e foi direto ao ponto: o percalço de Seattle não pode comprometer a continuidade do processo de liberalização da economia mundial. O único meio de conciliar as duas coisas consiste em avançar na implementação da chamada "Cláusula Social", que vincula o acesso aos mercados dos países ricos ao cumprimento de metas sociais inacessíveis às economias da periferia.

Por fim, deve-se esperar um ajuste na retórica. A progressiva escalada da crise social já não permite que se deixe de mencioná-la. Mas que ninguém se iluda. Os magnatas são pragmáticos. Como afirmou Rubens Ricupero, atual diretor executivo da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento: "ninguém vai nos dizer que se trata de um foro para negociar, por intermédio do comércio, a eqüidade social". A julgar pelos ares que sopram da internacional cor-de-rosa, a palavra de ordem é seguir o exemplo de Clinton, Blair, Jospin e Schroeder: o discurso é social, a política é liberal.

in:
http://www.correiocidadania.com.br/ed179/editorial.htm

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The great contradiction of the consumption society is the following: to survive, the industry has to produce more and more. It is only competitive producing more and cheaper. That implies fewer workers and more machines.
Let us attempt then in the paradox: less workers means more unemployment. To who is the inevitable increase of the production destined then? Here is a simple form of illustrating the problem: every day the industry produces for newer 100 consumers... which costs 100 new unemployed unable to consume!
How is this contradiction solved?


(Reproduction interdicts without the author's expressed authorisation.
For such contact through
here)

NEXT PALADINS OF THE PROLETARIAT
The future champions in the fight for the human rights, for more incredible than it seems, won't be nor the socialist movements, the church or the democratic parties, but (probably after some more social convulsions) the great industry, the banking, and the international nets of commercial distribution.
Such fight will have nothing to do with the actual model of protection of the lower classes. The great world producers forced to demand a just and equal distribution of the wealth would hold it. Only way of supplying to those that today consumes nothing, the necessary elementary ways to buy the continued production flow of an intensely manufacturer society.

The producing societies and the consumption societies
It is today permanently present, in the subconscious of each citizen, the rupture inevitability of the actual Western economical system. Such conviction comes of the elementary evidence that the system entered in contraction, having already reached its maximum limit of labour absorption.
The system has been working based in the competition among manufacturers of similar products, forcing them, in a fight for the survival, to presenting a product with the same quality, for an inferior price of its direct competitor. Which means that each competitor will have to produce a little more, so that the price is a little smaller.
We have there, than the great contradiction of the system. A competitive product is today the result of a strong bet in machinery. (Understanding such as the substitution for machines of high profitability a significant part of the human labour, expensive, with periods for vacations, lunchtimes, shifts, social attendance, childbirth licenses, etc.) It is attended, as consequence, to the massive workers unemployment in all production areas. The massive production is then responsible to the daily unemployment of thousands of workers and in short time limits the potentials final consumers and in consequence the excess of production of the companies producing for internal markets. These companies, forced to dismiss more employers will finish suffocated, with the consequent perch of its market shares in favour of a natural managerial cannibalism.
Since that these are the presuppositions of the competitive production, it won't remain to the companies in compression phase other solution that its extinction or absorption.
In a way probably not so lineal, we everybody felt the existence of this contradiction. Without shimmering a solution, we recognise however, the impossibility of staying longer in a system that always produces more, wildly more, for a number of consumers smaller every time. Almost everybody possessed televisions, radios, automobiles, etc. I mean us consumers. We represent less than 40% of the total population of the globe. We, the ones that are not working in a precarious way and are reasonably paid. We that are not reformed with survival pensions, we are the only target of all manufacturers. Our houses are full of technology; our highways are a permanent nightmare. Our drawers are full up of useless gadgets.

The terminal populations
The remaining of the world population it hardly consumes. They not only mean nothing for the producing system, as also they represent a formidable hungry mass of people screaming its rights to a worthy existence. Meanwhile they destroy indiscriminately the limited resources of the earth, wasting away their forces in mutinies and obliging governments to a formidable expenditure of resources in safety and armaments. 60% of the world population are very little interested in the latest digital technology and less in the virtuosity of a simple microwave. We, from now on, designate them as terminal populations. They are limited to survival; their countries only have to export their mineral resources and slavery labour.

Consuming societies
The coming of the new technologies brought the specialisation and the creativity. The bet went then to the spent of vast resources in research and education. The first big split of the Western societies: the ones that adopted the posture of benefiting of the advantages of external discoveries, and the ones that consumed formidable means in research, formation and importation of brains. The first ones, that not only will never recover of the technological delay, as they won't cease of increasing the existent ditch, they will drop unavoidably in a posterior phase in the group of the terminal nations. Let us designate them of consuming societies. Its inflation and foreign transactions is a permanent puzzle for any minister of the finances.

Producing societies
We can count by the fingers of the hands the number of countries that, due to conjunctures still not well analysed, insisted research and handling of new products. These are the producing societies who, today, define the internal orientation of the consuming societies, delineating systematic and comprehensibly the political for the most different and contradictory political systems. They limit the margin of decision of the respective governors, doing of these governors' mere transmission belts of its purposes, which, in this incipient phase of the process, are basically the expansion of its productions and advantageous buys of minerals. In a first glance it is easy to understand that under the same great economical power, we meet dictators but monarchs, liberal, conservatives or socialists rulers. All the great gentlemen of the terminal societies and of the consuming societies, are all entirely depending on the manufactures that generate goods. As well as they depend of the great finance market, with which they negotiate the access to its purchase.
Entirely dedicated to the competition in the florescent and viable markets, the big industry completely ignores the terminal societies, and they flee badly those denoting symptoms of close gone down.
They leave in the hands of internal polices the repression and contention, while waiting that its politicians find a solution for such 60% of the world population. Population that, in an optical of consumption, is hopelessly unrecoverable, useless. Oxygen consumer and big responsible for the messy pollution and progressive destruction of the short natural resources of the planet.
Absolutely superfluous these 60% of us.
Although it is not a common theme of discussion among the great managers - the owners of the world - it is plausible to admit that the solution, (for them inevitable), will, one day, pass by its extermination without pain, through a process not very distant of sterilisation.
The whole XX century will be marked for the interdependence and collusion, for merely economical reasons, among the myriad of dictators that populates the planet and the big industry lacking of the resources under their control. Its support to ferocious wealth accumulators are easily justified, since the markets, in which, later on, they place its products, has nothing to do with the hunger masses of people produced by such dictators.
It is then advantageous to transact a hundred tons of copper extracted with a whip, for any deluxe automobile. The terminal societies come representing for the Occident a mere lie of raw minerals paid in a very low price. So much low as the system forces to offer us (while consumers) a competitive product.

The universal panacea
Also in the consuming societies it is also visible the natural anthropophagy of the producing societies accentuating the ditch among them. Those who lose its cheap minerals vendors, they fall back upon a trick that the "great brains" of its economical systems classify of inevitable: the reduction of the its workers' remuneration, as counterbalance at the final cost of the product. Today the consumption societies live this permanent dilemma: unable to compete with the producing societies, subjected to successive dumping, is without resources. Without its traditional markets (now in the hands of producing societies), they are come in the contingency from closing the doors or, as subsistence compensation, reduce its respective working populations with the inherent social costs. It is completed; finally, the cycle of the populations with reduced access to the consumption, unable to sustain the same productive machine that sustains them. No money no consummation. If we don't consume why are we producing? If we are not producing, what serves to maintain the remaining workers?
It's first cycle. The one that transforms societies dazzled by the indiscriminate consumption of the foreign production, in beggars forced to deprive of its reservations, of every valuable goods including the moral values, (the corruption is quite so a typical phenomena) alienating its territory to the speculation and interest. The formerly happy and foolish consuming society, resembles now dangerously, to the inconsequent users of credit cards that, suddenly, discover their bankruptcy, shamefully in the hands of the banks that gave them the firewood with which they where burned.
Thousands of individual societies of consumption were mortgaging to the bank its suburban apartments.
The working classes, in this phase, see their boss as its great enemy: He explores its efforts paying with short remuneration. The bosses, for its part, see the working classes as a recurrent nightmare presenting to them on each end of month. Before announcing the impossibility of satisfying its commitments to the workers, he falls back upon the habitual subterfuges, which includes the non-payment to the government and social safety systems the due contributions. Worsening in a drastic way the access to the consumption of many other groups. The government then forced to a permanent injection of funds in the systems, together with the permanent drop of the workers-retired ratio of population, will feel a natural tendency for the court in the real value of the pensions. Those, together with similar measures, that should be taken in several and important domains, as health system, education they can only take to the indisposition that is the approach to the passage to the state of terminal society. (The educational system unknown its first function: must not just form citizens for a very competitive labour market, but still, selective and illuminated consumers. Capable for its intervention, of preserving the system to the indiscriminate production dumping of the of the great manufactures, that leans on, in the uncultured societies, in primary rules of marketing that seduce for the dazzle)

The second cycle
Each consuming society that drops represents a rude blow in the great industrial tissue, limiting the dumping of its production. The producing societies, because they act separately, they don't understand that, gradually, they are corner in the own back yard. As it is not still an insoluble problem, which they know never to solve directly and separately in any way, they look in a more energetic way to the remaining markets, now in the hands of its competition partners. While remaining a consuming society, it is for there that the efforts of marketing of all the producers will converge.
However, unavoidably, it will arrive the day in which the costs of marketing to seduce the few available consumers will become unbearable. They then finally discovery of a vast market desirous of consuming that doesn't only make it because the respective systems don't allow them.
Not worried with the apparent likeness of the action that they will undertake with the Marxist social systems, two powerful groups of interests will be compelled to unite efforts: the industry and the banking.
This last one that picked the enormous resulting benefits of the inconsequent use of the "credit card", becoming the landlord, not of a suburban apartment, but of the whole city, will soon discover the inability to transform the countless properties in money. Once again, they won't find who consummates the product they offering, worsened with the possibility of coming still to receive, once again as payment of its credits, the own great industries without solutions. Sad and delirious destiny the one of being owner of the ruins of a civilisation.
The solution will be then easy to find it is necessary to exterminate all the tendencies for the usury. Giving some money to those without resources. The old revolutionary maxim will be increased then with more any thing: " To each one according to its needs, so that we can dump our production ". The "Capital" will remove of the political power the class that previously had protected. They that they are unable to absorb the foundations of the new dynamics. They substitute them by technicians and managers able to find any escape to the beginning of the equal distribution of the resources.
In market logic, resource is all the accumulated money just seeking its reproduction and maintenance.
The functions of the money are just the ones of buying the work and its result.
It will be the end of the welfare system With money in the pockets nobody needs the public institutions of solidarity. The private ones have for who to produce, competing to each other in quality and in price. The state will have where to collect its taxes. The first function of the tax is the one of removing all the surpluses - and only the surpluses - applying them in the common thing.

Today
The only salvation board today that can seize the consuming societies, to avoid one day to fall into terminal societies, goes by the total change of the respective political ideas.
The demagogy that encourages its rulers and the impossible goals that they intend to reach, take them to deny the inevitability of the collapse. (As ridiculous as the one of trying to come to seize the " front " group, with his technological knowledge, investing in research, formation and post-formation, inferior budgets that are used by any pharmaceutical multinational for the preparation of a new syrup).
Each new ruler that enters, will find more difficulties which are in itself, the reason of being of the whole political divergence, he will spend is time in the insane search of panaceas for each new pustule, that springs from a society in exponential contraction.
Without time, not even perspective to prepare the future.
The secret for the success of the consumption society, after all, we owed it to Marx:
Only an equal distribution can satisfy the proletariat in its elementary needs, because only them, and in this way, it will be capable to absorb the product of a society that in a market logic, is forced to produce unceasingly.
The new and inevitable God-consumption, capable to even the societies, will substitute in the men's heart all the religions and ideologies, already without neither voice nor sense, that didn't know how to be with them nor to understand its passions.

Zero - 1999

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